Entrevista: novos caminhos para o sindicalismo

Algumas das principais mudanças recentes na legislação trabalhista dizem respeito aos sindicatos e isso, assim como as transformações naturais da sociedade, pedem que essas organizações se modernizem. Para discutir sobre as necessidades de mudança dos sindicatos e os caminhos alternativos para essas organizações, o especialista em Governança e Estratégia José Eduardo Perone trará ao 35º Congresso Nacional de Sindicatos Empresariais do Comércio de Bens, Serviços e Turismo a palestra Inovação e Sustentabilidade Sindical. Na apresentação, será levantada a demanda pela quebra dos modelos antigos de gestão dessas entidades em favor de um modelo que se alinhe com a nova cultura organizacional das empresas.

Na entrevista a seguir, Perone adianta alguns pontos que serão abordados em sua participação no Congresso.

35º CNSE – De que forma as mudanças na sociedade afetam o ambiente corporativo?

Eduardo Perone – A sociedade é um organismo vivo, dinâmico. Logo, seus movimentos impactam os ambientes corporativos de forma natural, sociológica, muito embora, o desafio das organizações é ter a sensibilidade para detectar e fazer a leitura correta dessas movimentações. O ambiente corporativo está, evolutivamente, buscando uma atmosfera mais liberal, menos engessada, mais interdependente e não independente, com mais interação e simplicidade. A sociedade está excessivamente regulada, herança de uma cultura sociológica dependente de Estados Sociais, o que vemos estar em franca ruptura.

Como os sindicatos empresariais estão inseridos nesse contexto? Eles vêm conseguindo acompanhar essas transformações?

O modelo sindical brasileiro é único, um misto do italiano, do americano e do francês, um modelo centenário que já não mais reflete a dinâmica social. Por muito tempo as organizações sindicais brasileiras mantiveram-se sob o manto do garantismo de representação e da unicidade sindical que os permitia assegurar sua sustentabilidade. Isso gerou uma consequente acomodação que acabou por comprometer a representatividade, assim como a sustentabilidade financeira.

O desafio agora, pós reforma trabalhista, será as organizações sindicais mudarem o modelo para um modelo desruptivo, com mais percepção social do mercado de representação e entrega, e não apenas esperar o exercício do princípio arrecadatório.

O modelo sindical atual deverá ser redesenhado, deverá deixar de amparar-se apenas nas prerrogativas legais de representação e atuarem como organismos vivos no mercado associativo organizado. As organizações que tiveram essa sensibilidade de percepção antes, acredito estarem acompanhando essas transformações com mais leveza, os que não perceberam, tenderão a extinguir-se, justificando a incorporação de base e categorias pela percepção das próprias categorias representadas com a evasão.

Que tipo de mudanças são necessárias para atualizar os sindicatos de acordo com as necessidades atuais das empresas?

Mudança de cultura de gestão, aplicação de boas práticas de governança, maximização da transparência, aproximação dos seus representados de forma atrativa, maximizando parcerias e ampliando as relações institucionais. O associativismo organizado está, de modo geral, passando por uma reafirmação, onde apenas o exercício da representação já não mais justifica sua existência. Há que se inovar nos contratos sociais, especialmente na relação sistêmica de base, estreitar a distância será um passo significativo para a criação de um modelo desruptivo de sindicalismo moderno, cujo conceito puro e simples das “guildas” não basta mais. Assim como a sociedade, as empresas e os empresários dinamizam-se, há que se trabalhar a par e passo com essas transformações e minimizar as ações espasmódicas. Planejamento e conhecimento do mercado associativo será o mote para as organizações e seus líderes.